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O lado obscuro da cirurgia
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Sem anestesia ou qualquer tipo de higiene, cirurgiões cauterizavam com óleo fervente e usavam picadores de gelo para lobotomias
Fonte: Revista Galileu
Robert Linston caminha em direção ao centro cirúrgico, ao lado do necrotério do hospital do University College, em Londres. Lamparinas a gás iluminam a mesa de operação, onde seu paciente é colocado. Mesa de operação, aqui, é só um modo de dizer. A pessoa fica estendida em um banco de pinho repleto de manchas de sangue de outros adoentados que por lá passaram. Ela tem um osso quebrado que perfura a pele de sua panturrilha. Seria um procedimento relativamente simples, não tivessem o doutor e o paciente nascido na época errada.
O ano é 1842, quando uma fratura exposta significava infecção seguida de gangrena e morte. A outra opção, amputar a perna, não era muito melhor. Um em cada seis amputados por Linston — o melhor cirurgião do Império Britânico — não resistia. Sem dizer que, antes de enfrentar a morte, ainda tinham que passar por momentos de dor intensa pois não existia anestesia, só alguns paliativos, como álcool ou algum tipo de psicotrópico.
Um dos auxiliares de Linston amarra a perna boa do paciente à mesa e dois outros homens seguram seus ombros e braços para evitar que ele saia do lugar quando começar a se debater. Um terceiro ajudante pega a perna machucada enquanto Linston, em um movimento rápido, corta a carne da coxa. Outro assistente aperta um torniquete para reduzir o sangramento. Depois, coloca os dedos (sem luvas) dentro do corte e puxa para cima a massa de pele e músculos, expondo o osso. O paciente urra — é provavelmente a pior dor da sua vida. Linston esfrega uma serra em vai e vem contra o osso e uma poça vermelha de sangue se forma no chão enquanto ele se solta, no que o cirurgião alcança agulha e linha para fechar veias e artérias. O procedimento é cronometrado: 30 segundos.
Esse é um dos relatos recuperados em documentos históricos por Richard Hollingham, jornalista da rede de TV inglesa BBC, em seu livro Sangue e Entranhas: A Assustadora História da Cirurgia, recém-lançado no Brasil pela Editora Geração. A obra mostra os percalços de cirurgiões e pacientes até que a prática se tornasse mais segura. Nesse caminho, transplantes feitos com órgãos de animais, lobotomias com picadores de gelo e infecções transmitidas pelas mãos contaminadas dos cirurgiões eram comuns. “Sem raios X para identificar os males, anestesia para reduzir a dor, sem antibióticos e sem esterilização, os procedimentos cirúrgicos até o começo do século 20 eram extremamente perigosos”, diz Hollingham.
DOR, MUITA DOR
Se você achou a amputação descrita acima dolorosa, é porque não sabe como era feita antes de Linston. Em vez de se costurar a perna para reduzir o sangramento, a prática era queimá-la. O uso de brasas para cauterizar cortes começou no Egito mas, até o século 17, quando se removia uma perna ou um braço durante as guerras, era comum usar um ferro quente na tentativa de parar o sangue — o que, na maior parte das vezes, não salvava o paciente. Até o século 16, época em que o francês Ambroise Paré desenvolveu procedimentos para costurar os vasos, a ordem era derramar óleo fervente no local atingido para estancar o sangramento de ferimentos à bala. “Quando o tiro falhava em matar o soldado, o choque do líquido fervendo concluía o trabalho”, diz Hollingham. Mesmo com a melhoria dos procedimentos para estancar o sangue, a operação ainda era feita com o paciente se contorcendo. “Haxixe e álcool traziam algum amortecimento ao corpo, mas tinham suas limitações. O indivíduo não aguentava — morria de dor”, diz André Mota, historiador do Museu da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).
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