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Ciro Batelli - “Estou muito preocupado”
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Fonte: Brasilturis Jornal
Para quem foi 14 anos vice-presidente da rede Caesar Park e outros quatro no setor de Relações Internacionais da poderosa cadeia hoteleira e mora há 27 anos em uma das cidades ícones do business de entretenimento mundial - Las Vegas -, a força do conhecimento turístico aumenta a cada uma das repetidas viagens que faz nesta ponte aérea Brasil-Estados Unidos, um mês por aqui, dois lá, e vice-versa. Observador como poucos, tem uma visão muito pessoal em seu olhar sobre o turismo brasileiro, justamente por querer algo mais em razão de todo o potencial que o país tem. Aos 70 anos, com o casal de filhos formados na atividade, o Fernando para agência de viagem e a Flávia em alimentos e bebidas de hotelaria, Batelli continua a ser um profissional múltiplo e que se considera aprendiz nato, mesmo sendo, para muitos, o brasileiro que mais entende de Estados Unidos. Ele é o presidente da empresa de consultoria e marketing Mr. Vegas Internacional Inc., com clientes em vários países.
Sem esconder sua paixão por carros (tem seis), frutas exóticas (as brasileiras, lógico, é viciado em seriguelas e romãs), os muitos afazeres da vida social, colunas e programas de tv onde circula com desenvoltura, tem o turismo como essência. Fala de turismo, de hotelaria e gastronomia, porque sabe e conhece. Vale a pena saber o que ele pensa – e diz claramente – sobre questões do turismo no Brasil, o que produz e o que não satisfaz, virtudes e erros, além de mostrar um pouco do conhecimento que tem sobre a cidade onde criou fama a ponto de ser chamado “Mr. Vegas”.
BRASILTURIS JORNAL - Como o senhor situa o turismo brasileiro?
O Brasil não tem turismo. Não tem o turismo olhado oficialmente como produto indiscutível, reconhecido e evidente. O Ministério do setor teria que ser mais forte mais técnico e melhor conduzido, sua verba é insignificante em relação à importância geradora da atividade. Ainda entendo que precisamos de um tratamento de choque para o turismo brasileiro acontecer e não em função de bolha econômica. Olha, pelo lado oficial, ressalvo apenas o trabalho que a Bahiatursa desenvolveu ao longo dos anos e um pouco de ações recentes da São Paulo Turismo, o restante... O Brasil não tem mesmo uma política nem um organismo de turismo do tamanho do seu potencial. E isto pesa. E muita gente se engana com isto, ou se contenta com pouco.
BJ - A propagação que se faz como “bola da vez” também em função dos grandes eventos programados, não tem seu entusiasmo?
Tenho muitos receios, ando por demais preocupado. A Copa para o Brasil foi uma imprudência. O país não está preparado e tenho muitas dúvidas que venha a ficar. Somos um destino imenso, isto sim, mas e a estrutura... Você ouve falar muito, tem reuniões e reuniões até demais, mas as providências reais, a seriedade dos fatos e realizações, a transparência, isto passa meio distante. E o tempo vai correndo. E há um milhão de providências a serem agilizadas.
BJ - Então, a realidade do turismo no Brasil tem muitas restrições no seu modo de pensar. O que o senhor sugere?
O Brasil tem atrações naturais como nenhum outro. Da Amazônia ao Pantanal, do Sul maravilha ao Nordeste encantador. É preciso investimento. Precisamos de incentivos, de tarifas mais consideradas, de infraestrutura mais adequada. De menos burocracia e maior agilidade. Estas redundâncias da legislação ambiental, a tributação, em muitos casos estão fora da realidade. Obviamente, precisamos de uma política de turismo mais oficial para um apoio mais empresarial. Sabe o que ocorre? No Brasil fazemos muito alarde, é um modelo para fugir da realidade. Este caso do desembarque anual de turistas estrangeiros. Há quantos anos seguimos derrapando na casa dos 5 milhões? É ridículo. A criação do Ministério não era para dobrarmos os números em cinco anos? Ninguém lembra mais, ninguém cobra. É muito vagarosa a nossa reação, há mais política que condições estruturais, promoção e afirmação. Não é assim que se faz turismo por completo.
BJ - O senhor tem uma receita, se é que ela existe, para que o setor possa deslanchar rapidamente nos próximos anos?
Profissionalismo. Profissionalismo e consciência política incisiva. Termos um ministério com poder, decisão e ousadia. Encarar o turismo realmente como indústria, pois o cenário nós já temos, faltam os bons atores.
BJ - E o Ciro Batelli empresário, o que sugere?
O ecoturismo precisa ser desenvolvido, este é um nicho muito especial. Em outros dois segmentos daria recomendação expressa. Na Terceira Idade para que tivesse serviços mais específicos, um reconhecimento de mercado que ainda existe de forma muito tímida, e que já poderia estar rendendo bem mais, muito mais. Outro segmento está no GLS, sofisticação e glamour voltados para este público que tem um modelo turístico que combina intensamente com o Brasil tropical, musical, de carnaval e alegria. Tenho certeza que a destinação com estes nichos resultaria em pontos bons e convergentes.
BJ - Qual o conselho que o senhor daria para estes milhares de estudantes que estão voltados para o grande foco de trabalho prometido agora e a seguir nos próximos anos?
Primeiro e importantíssimo: aprender idiomas. Quanto mais idiomas souber, mais chances de trabalho vai ter. Eu tinha uma política na rede Caesar que entendo seria prática por aqui. Cinco por cento a mais no salário do funcionário por cada idioma que ele acrescentar ao seu currículo. Outro item é o de frequentar a escola de atendimento, conhecer a cultura de países, as palavras-chaves: obrigado, desculpa e por favor. Este trio abre as portas do mundo. Sabedor das três palavras de afinidade, você vai receber e será bem recebido em qualquer lugar.
BJ - E sobre Las Vegas...
Evidente que a crise bateu forte, houve uma queda de 18% na demanda, mas, mesmo assim foram 37,5 milhões de visitantes no ano passado. Deixou de ser uma cidade vivendo do jogo para se transformar no principal destino de congressos, feiras, convenções e todas as atividades relativas a eventos. Este é um novo foco de uma cidade que nunca deixa de priorizar investimentos e entretenimento. São 148,5 mil apartamentos e agora, dia 15 de dezembro, inauguramos mais uma grandiosidade, o Cosmopolitan. Os preços são compatíveis e competitivos, por uma tarifa de US$ 150 você tem a diária em uma suíte com muitos privilégios, enquanto que por aqui... O entretenimento é show. Só o Cirque du Soleil tem sete espetáculos e no final do ano que vem, já em produção, haverá um super-espetáculo, o musical Michael, homenagem ao maior pop star. O valor de Las Vegas é compensador.
BJ - O senhor desistiu da implantação do jogo legalizado no Brasil?
Não, não desisti. Continua o sonho da legalização do jogo. Jamais defenderia a jogatina como fator de corrupção e outras anomalias. Entendo que a indústria do jogo é muito séria para o Brasil de hoje e jamais corresponderá a esta visão de lavagem de dinheiro que, infelizmente, muitas “virgens” tem por aqui. O projeto de lei continua, devagar, sempre recebendo bloqueios do Ministério Público, dos evangélicos, e tais. Há muita maledicência e uma falsa moral sobre algo que só não é bom, legalmente, no Brasil. No mundo inteiro é. Além disso, o encaminhamento das possibilidades é diferente da lógica existente em Las Vegas e que é modelo em muitos destinos. Lá é o menor imposto para que possa se repassar um maior lucro. Não adianta pensar em destinos que não sejam compatíveis, ninguém vai querer ir jogar na Ilha do Marajó, me desculpem os paraenses. Jogo tem que ser no Guarujá (litoral paulista), por exemplo.
BJ - Como define a hotelaria?
A hotelaria é uma ciência. No Brasil ela viveu muito e ainda vive da conceituação familiar. Não faz tanto tempo que as grandes redes e pirâmides internacionais começaram a chegar. Ainda vai levar um período para que possamos estar alinhados com este padrão que é reflexo de todo um conjunto. Cobramos tarifas de primeiro mundo porque temos custo de primeiro mundo, mas a qualidade ainda deixa bastante a desejar. E a hotelaria é módulo de referência para que os demais setores prosperem, então é sintomático que tem que ser olhada com uma visão de maior alcance.
BJ - E quais são as perspectivas para os próximos anos?
Lamento que o planejamento do turismo, sua importância, continuem sendo vistos de modo tão obscuro. Perceberam que o turismo não entrou na pauta dos candidatos à presidência? O turismo precisa de líderes e nenhum dos dois falou de turismo. Eu falo, tenho sempre muito a falar. Para qualquer pergunta, sei responder. Estou à disposição no e-mail batelli@aol.com . Falo grosso porque sempre lutei pelo turismo brasileiro. E insisto: estou muito preocupado com os rumos e o futuro do turismo no Brasil.
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