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A revolução da melhor idade

A revolução da melhor idade

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A população com mais de 60 anos cresce a cada dia, crescimento este registrado predominante em países europeus, onde a cultura que os embasou nas últimas décadas inclinou para se ter poucos filhos, o que fez diminuir o índice de natalidade e aumentar, consequentemente, o que vem sendo chamado de “inverno demográfico”.

A cultura, todavia, não influencia apenas na decisão do número de filhos que um casal escolhe trazer ao mundo, ela também envolve questões como o abandono aos pais por parte dos próprios filhos, quando adultos, e da sociedade em geral, cuja legislação não prevê, sequer, a existência e a necessidade do idoso em questões de partilhas por separação e outros contextos.

Porém, a mais nociva influência cultural ainda é a crença social da invalidez por idade, que surgiu ainda nos primórdios das leis brasileiras, embora modestamente, e se instaurou com real potência de constituir massa crítica a partir de 1966, quando da unificação dos Institutos de Aposentadorias e Pensões no Instituto Nacional de Previdência Social (INPS).
A crença, no caso, surgiria do fato de a pessoa conhecer de antemão que, a partir de seus 55 anos (idade mínima afixada na época para se requerer o auxílio previdenciário por idade), ela seria considerada inativa para a sociedade produtiva, sentindo-se, portanto, incapacitada e impotente.

A sensação de impotência cresceu quando, a partir de então, os empregadores passaram a negar boas vagas às pessoas, em geral, a partir dos 45, 50 anos de idade, considerando-as estarem muito próximas de suas aposentadorias e, portanto, inadequadas para desenvolverem um plano de carreira dentro de suas empresas.

Já na década de 1970, a idade de 40 anos ganhou associações psicológicas ainda mais reforçadas no âmbito da impotência, causadas pela pressão indireta da sociedade para com os chefes de família dessa idade que, ainda por cima, somaram à síndrome a redução da libido e consequente inibição da potência sexual, muitas vezes resultando em impotência de fato.

Aliado a isso tudo, nasceu a ideia de que a partir dos 40 anos, o ser humano, estando em meia idade, começava a fazer a curva para baixo no gráfico de vida, ou seja, seria a partir disso que o elemento começava a morrer fisicamente.

A crença no ciclo da morte contaminou a maior fatia da sociedade, que extrapolou levando o senso de morte para o âmbito mental. Foi aí, em meados dos anos 70, simultaneamente à constatação do fracasso do movimento mundial libertário hippie, que os cérebros dos nossos cidadãos, mais que os das nossas cidadãs, passaram a trabalhar no sentido de dirimir qualidades tipicamente mentais. As mulheres aderiram à prática um tanto por osmose, numa necessidade implícita de acompanharem seus maridos, outro tanto pela pré-existente sensação de impotência social, já que as mulheres do século vigente ainda eram confinadas ao lar, sendo consideradas revolucionárias as que ousavam disputar lugar com os homens na composição econômica da força de trabalho do seu país.

Não foi à toa que o maior índice de ocorrência de câncer no Brasil, sendo esta uma doença relacionada a crenças, perdas e apegos, deu-se durante quinze anos a partir de 1980. Indireta e psicologicamente, o câncer pode ter surgido com essa potência toda em nossa sociedade como um mero reflexo da reação íntima de cada um ao processo gradativo de exclusão que sofreram desde que se instituiu o declínio para a morte a partir dos 40 anos.

A síndrome do envelhecimento saiu, portanto, do contexto físico para ir formar um quadro psíquico com elementos sociais fortíssimos reforçados ainda pela crença científica no fenecimento das sinapses, que são os elementos responsáveis pela comunicação entre os neurônios. Porém, a ciência revelou que, ao contrário do que se pensava, as sinapses não se deterioram, morrem, e então deixam de ser produzidas, como outras células do organismo, mas elas são, na verdade, renováveis, bastando para tanto estimular sua reprodução.
Após a revelação, pessoas do grupo da terceira idade têm feito mais palavras cruzadas e exercícios físicos e mentais capazes de estimular a renovação das sinapses e, consequentemente, produzir um revigoramento mental que acaba por se traduzir em rejuvenescimento como um todo, uma vez que a atividade mental estimula a física e vice-versa.

Foi assim que, de 1995 para cá, não só os índices de câncer caíram, como também as pessoas com 60 anos ou mais passaram a apresentar comportamento mais jovial e alegre, o que está aumentando a olhos vivos o nível médio de vida no Brasil e no mundo.

Essa revolução da melhor idade é hoje um indicador de mudança das crenças e paradigmas que instituíram no passado que às pessoas acima dos 50 só resta esperar a morte. O que se vê atualmente, ao contrário, são mais e mais grupos de idosos voltando ao mercado de trabalho com energia e competência, dando lição de vitalidade em muita gente de 30.

Se há uma conclusão plausível para essa nova realidade, é que a mente e suas crenças são as principais responsáveis pela qualidade de vida que nós temos, sobretudo, em idade dita avançada. A meu ver, a melhor idade é mesmo melhor porque não só permite que o cidadão ou a cidadã tenha um recomeço de vida, como também que este abra espaço para que ocorra o progresso pessoal e espiritual dessas pessoas.

Infelizmente, a persistência de aspectos sociais ainda muito adoentados, como o já citado abandono, tem permitido que novas doenças, que não o câncer, mas o mal de Alzheimer, por exemplo, ganhem lugar em nossa sociedade. Apesar de que a causa dessas doenças não é o abandono em si, mas o fato de a pessoa que o sofre se sentir como tal e sofrer com isso profundamente.

Mais e mais idosos, graças à iniciativa de inúmeras ONGs e instituições, têm superado isso com o aumento de suas atividades físicas e mentais, agrupando-se mais, saindo, viajando, investindo em terapias alternativas, lazer, cultura, enfim, movimento. É graças a estes grupos que a população pode ver aumentando a cada dia a média de sobrevida da população. Para mim, estes são os revolucionários que disseram não à morte em vida e sim à vida plena enquanto ela durar.

O jeito, então, é refletir e mudar a nossa visão de mundo agora mesmo, afinal, se você ainda não chegou aos 50, 55, 60, um dia chegará lá. E, com certeza, vai querer uma qualidade de vida superior à que possui hoje ou à que proporcionou aos seus pais, não é mesmo?

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Lucia Roberta Mello <br />São Paulo

Estilo Único

29/06/2011 | 11:42

Por:

Lucia Roberta Mello
São Paulo

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