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A revista poder traz entrevista com o ator José Wilker

A revista poder traz entrevista com o ator José Wilker

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Créditos: a fotógrafa Paula Kossatz e a Revista Poder

Entrevista picante do ator José Wilker para a Revista Poder , a exemplo do justiceiro que encarna na telona, José Wilker aponta a metralhadora giratória para todos os lados e abate os milionários incultos, as mulheres-fruta, a televisão sem inquietação, o cinema sem público. E não poupa nem a si mesmo

Possuído pelo Zeca Diabo

A 28° edição da Revista Poder traz uma entrevista picante com o ator José Wilker. A exemplo do justiceiro que encarna na telona, José Wilker aponta a mira certeira para todos os lados e abate os milionários incultos, as mulheres-fruta, a televisão sem inquietação, o cinema sem público. E não poupa nem a si mesmo. O ator cearense radicado no Rio de Janeiro, este mês empresta seu talento ao matador Zeca Diabo, personagem de O Bem Amado, adaptação da obra de Dias Gomes com direção de Guel Arraes.

Na matéria de Pedro Henrique França, o ator que está prestes a completar 66 anos relata  manter a sua  vaidade e diz que acha importante se cuidar, contanto que as pessoas não se tornem vítimas da moda.

Em setembro começa a rodar o longa que dará sobrevida ao famoso personagem Giovanni Improtta, o bicheiro da novela Senhora do Destino. Em novembro, se lança como escritor com ‘Esse Não é um Livro Sobre Cinema’. É possível que também encare o palco no espetáculo Entrevista, com direção de Daniel Filho. E ainda queria adaptar para os palcos A Humilhação, de Philip Roth, mas teve de adiar os planos já que Al Pacino comprou os direitos da obra para o cinema.


Confira trechos da matéria realizada pelo jornalista Pedro Henrique França para a Revista Poder:

“A gente peca ainda nos roteiros. É um mistério profundo pra mim essa deficiência. Fiquei na RioTur durante quase cinco anos, e nesse período eu tinha, por obrigação, que ler uma quantidade notável de roteiros. E uma maioria significativa pecava pelo mau uso da língua portuguesa. Ora, o mau uso da língua portuguesa implica em um conhecimento bastante rasteiro da literatura em língua portuguesa... Acho que essa profissão, de algum tempo pra cá, talvez pelo encanto provocado pela televisão, passou a atrair um enorme número de pessoas cuja formação, em geral, é primitiva. Muita gente faz pós-graduação na BodyTech (risos) e acha que está bom.”

“A política brasileira se criou no nepotismo, no clientelismo, no coronelismo. Essa é uma herança de que a gente só muito lentamente vem conseguindo se livrar. Ainda existe muito político-moda, aderente à ‘causinha’. Mas acho que os espaços que eles ocupam hoje é cada vez menor. Então, no caso do Bem Amado, mais do que uma denúncia, é uma reiteração de um necessário chamado à atenção pra que a gente não reedite circunstâncias lamentáveis de um passado recente. Mas essa gente não deixa de ter seu encanto. Você pega, por exemplo, políticos como o Paulo Maluf, ele é muito engraçado”.

“O problema é que nossa juventude, com todo o respeito pelas exceções e são muitas, foi desmobilizada por um sistema educacional pernicioso que faz com que as pessoas tenham acesso à informação e nenhum acesso ao conhecimento. Hoje as pessoas têm o celular que fotografa, filma, toca música, encontra direções no Google Earth, e isso não implica em nenhum conhecimento. E se não há conhecimento, não há sabedoria; se não há sabedoria, não há cidadania; se não há cidadania, não há democracia”.


“O nosso grande ídolo futebolístico Kaká dá dinheiro para uma ex-presidiária, que entrava ilegalmente com dinheiro dos EUA e que fica rica tomando dinheiro dos outros para vender terreno no céu. Pode ser que a juventude esteja desmobilizada, que tenha banalizado os escândalos, mas pode ser outra coisa também: houve no Brasil uma separação entre educação e cultura. A cultura virou uma espécie de prima pobre do sistema”.

“Aqui no Brasil não temos alguém como o Zeca Diabo [matador]. Essa é uma tradição americana que a gente ainda não adotou. Afora as brigas internas dentro do Congresso Nacional, eu não creio que tenha havido alguém tão revoltado com uma ação política que tomou para si, nas próprias mãos, a Justiça e a executou. Mas existem pessoas como o Pedro Simon [senador], que tem esse comportamento ético. Mas o Pedro Simon é quase um São João Batista, uma voz exclamando no deserto. É como a gente vai pra Igreja: adora o santo, faz prece, pede perdão e vai pra rua pecar, repetir as mesmas cagadas”.


“Para mim, qualquer um que for eleito está de bom tamanho. Houve um tempo em que a gente era muito messiânico, tinha grandes expectativas de que A, B, C ou D iam salvar o mundo. Mas essa coisa messiânica é um troço que eu torço pra que seja coisa do passado. As pessoas estão começando a enfiar a mão na lama e resolver suas questões”.

“Quem enfiou na cabeça que as pessoas ricas, ditas cultas, deste país sabem articular uma frase com sentido, com começo meio e fim? Eu conheço poucos. A mesma briga com o plural que o Lula tem eu posso ver em várias elites. O próprio desconhecimento da língua portuguesa e da cultura como um todo posso perceber nas classes altas e baixas desse país. Aliás, percebo isso mais gravemente nas altas – e elas não têm desculpa porque tiveram acesso à escola. Hoje você encontra um milionário que acha que Dostoievski são dois caras, que são dois Toievski’s, que são gêmeos”.

“Porque os americanos não fazem cinema pra defender um movimento artístico, mas para defender a conta bancária. E ponto final”.

“O único que resta dos grandes festivais com teor artístico é Veneza. No que se refere ao Brasil, particularmente tem uma coisa a notar: para nós o festival passou a ser a carreira do filme. Como a gente não tem muito onde mostrar, os filmes percorrem uma via sacra de festivais, acumulam uma quantidade monumental de prêmios, mas não chegam às salas de cinema”.

“Na verdade, quando zapeio pela TV e vejo aqueles programas... Cadê a inteligência? Qual a utilidade pública daquilo? Nós temos mais de 300 títulos dedicados ao nosso chamado showbiz. Hoje você tem uma imprensa via internet que tem de inventar notícias 24 horas por dia.

“Aliás, que coisa ridícula: de onde alguém tirou essa ideia imbecil de chamar a pessoa de melancia, maçã, moranguinho, não sei o quê? Desde quando um rabo é sinal de inteligência?”

“Com relação especificamente ao teatro, as leis prestaram um desserviço monumental a nós, porque muitas vezes a gente fez teatro para captar recursos e não para disputar na bilheteria a preferência do público. O que aconteceu foi que a gente, que produz cultura, se pendurou nas leis e não permitiu que elas fossem extintas e hoje a gente sofre imensamente com isso”.

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