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Mentiras
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Mentir é bom, bom… mentir é bom, bom, bom…
Desde pequenos somos orientados por nossos pais a falarmos somente a verdade, pois mentir é muito feio. Mas será que a mentira é mesmo tão ruim assim?
A mentira é prática usual do mundo. Infelizmente, não temos ainda a capacidade de viver sem ela. Isto é um fato e, indignados ou não, esta é a mais pura verdade.
A igreja católica instituiu como pecado mortal a mentira dita com más intenções ou com o propósito de ferir a alguém; e como pecado venial, a mentira jocosa ou inofensiva. Mas quem ouve a igreja hoje em dia diante de tantas mentiras que ela própria contou e que hoje foram descobertas?
Filósofos se dividem. Platão, por exemplo, achava que a mentira é aceitável dependendo da sua aplicação. Aristóteles, ao contrário, dizia que mentira é inaceitável em qualquer circunstância. Mas, infelizmente, quem de nós, hoje em dia, tem o hábito de filosofar para desvendar as verdades da vida?
A mentira ganhou força em nossa sociedade pela falência da religião e o desuso da filosofia. E foi assim que nos tornamos mentirosos convictos.
Na prática, se eu falar para a minha mãe que vou à festa rave e que lá estarão pessoas usando drogas e consumindo bebidas alcoólicas, mas que eu não vou usar nada disso, ela não vai acreditar. Então, eu digo que vou passar o fim de semana com a família de minha amiga confiável e tudo bem, ela não se magoa, nem eu deixo de ir à festa. E tudo bem porque eu não vou mesmo usar nem bebida nem droga. Então tá certo? Não, não está! Se minha mãe descobrir, vou ouvir um monte! Ela dirá do risco que eu corri, mesmo não usando nada ilegal, pois alguém poderia aparecer alguém para me oferecer um refrigerante com boa noite cinderela, eu talvez fosse estuprada ou morta, e tal e tal.
Mas se eu falar para minha mãe que vou estudar na biblioteca e, na verdade, eu for ao shopping encomendar uma festa surpresa para o seu aniversário, quando ela descobrir, não vai me repreender.
Será que a mentira do primeiro exemplo é pior que a do segundo exemplo? Não. A consequência da mentira é que nos dá a impressão de que uma é mais inofensiva que outra, e precisamos aprender a discernir as coisas, vê-las como de fato são, para então tirarmos uma linha de conduta própria.
De tantas vezes que mentimos e não sofremos consequências dolorosas, nos habituamos a mentir por qualquer coisa, desvalorizando até mesmo as mentiras sociais, que são aquelas inocentes, que damos para nos livrarmos elegantemente de situações embaraçosas, ou as caridosas, que damos para acalmar o coração de um aflito até que ele possa suportar a verdade ou não precise mais dela.
Na cabeça de muitos, a mentira passou a ser algo bom porque nos livra de compromissos indesejáveis e consequências terríveis. Mas, na verdade, tornou-se uma praga social que, pelo modo indiscriminado e inconsequente como vem sendo usada, tornou-se causa de diversos desvios de caráter que contaminam desde um lar promissor até o quadro político de uma nação.
Para não ferirmos com a verdade, escolhemos mentir. Para não sofrermos com as consequências da verdade que nos incrimina, escolhemos mentir. Para protegermos alguém de quem gostamos, escolhemos mentir. Para sustentarmos uma mentira contamos outra e mais outra e isso não tem fim.
Chegamos a um ponto em que não sabemos mais o que é verdade em nossas vidas, em nosso entorno, em nossa comunidade.
A cura para esse vício do mentir é a lapidação moral. Melhorar-se intimamente, no caso, é encontrar meios de ser verdadeiro, encontrar bases morais para sustentar a verdade, e persistir na ação correta.
Quando uma pessoa é competente no que faz, ela não precisa mentir para encobrir suas falhas. Quando uma pessoa possui um moral ilibado, ela não precisa usar de subterfúgios para sair de uma situação embaraçosa. Quando uma pessoa é senhora da verdade, ela aprende a calar e a falar apenas com justiça. E seu moral é tão elevado aos olhos alheios, que mesmo diante da maior injustiça, a verdade o protege. Quando uma pessoa é correta, ela encontra um jeito de usar a verdade sem ferir, pois sabe que a mentira é a prima-irmã, o berço e a coberta da corrupção.
Sabemos como é satisfatório passar ileso por uma mentira, ser salvo por uma mentira ou se safar de uma punição terrível por ter mentido. É uma sensação tão boa que dá até vontade de experimentar mais uma vez.
Porém, para essa turma do “mentir é bom”, que tal pensar no quanto é ruim descobrir uma mentira em nossos pais, em nosso melhor amigo ou na pessoa que amamos?
Nossos pais não vivem mais sem mentir, eles são frutos da geração que venceu pela mentira, com a mentira e por causa da mentira. Eles têm razão em muita coisa, conhecem muitas verdades e as ditam, mas estão mergulhados num mar de mentira. Se tirarmos a mentira da vida deles, eles perderão o equilíbrio e cairão. E nem você nem eu conseguiremos reerguê-los.
Portanto, seja você um descobridor de verdades. Seja o super-herói da nova era e nutra sua existência com verdade, uma verdade justa, generosa, gentil e salvadora. Se você aprender a lidar com a verdade, outros também aprenderão e, em breve, haverá muitos braços para sustentar e reerguer nossos pais e nossas mães, esses velhos integrantes da turma do “mentir é bom, bom... mentir é bom, bom, bom”.
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