patrocinado por
Meios Eletrônicos e Educação: Nova vida ou destruição?
Publicidade
Valdemar W. Setzer
Depto. de Ciência da Computação da USP
www.ime.usp.br/~vwsetzer
(Publicado na revista Aprendizagem¸ ano 4, No. 20, 2010, pp. 40-43; algumas adições foram feitas para esta versão, marcadas com colchetes [...])
Os meios eletrônicos TV, video games, computador e Internet) estão sendo cada vez mais usados por crianças e adolescentes. Esse verdadeiro ataque à infância e à juventude começou entre nós na década de 1950, com o advento da TV. No entanto, há diferenças brutais entre aquela época e a presente.
Por exemplo, a TV penetrou nos dormitórios das crianças, pois em geral os pais compram um aparelho novo e o velho não é jogado fora; aparelhos portáteis como jogos eletrônicos e celulares conectados à Internet podem ser usados em qualquer lugar. Com isso, os pais perderam totalmente o controle do que os filhos veem e fazem com os aparelhos.
Os resultados têm sido absolutamente catastróficos, como por exemplo a diminuição do rendimento escolar, o que já está plenamente provado por pesquisas estatísticas; vejam-se, por exemplo, meus artigos em meu site, “Considerações sobre o projeto ‘Um Laptop por Criança’” e “Efeitos negativos dos meios eletrônicos em crianças e adolescentes”, ambos com farta citação de pesquisas recentes.
A razão superficial que se dá para esse efeito é o tempo que os jovens gastam com esses aparelhos, o que os afasta dos estudos e tarefas escolares. Ela está correta, mas vou muito mais a fundo nessa questão.
Todos esses aparelhos têm algo em comum: trabalham com telas. A consequência imediata disso é que o usuário tem que ficar imóvel à frente deles, em geral sentado.
Obviamente existem exceções, desde os pequenos movimentos de braços e mãos no caso dos jogos em geral, e movimentação do corpo nos do tipo Wii que, aparentemente, já saíram de moda ou de um aparelho de TV em frente aos aparelhos aeróbicos nas academias.
Mas a quase totalidade do uso de aparelhos com telas exige que o usuário fique sentado sem fazer nada – ou quase nada. No caso da TV, a imobilidade não é só física, é até mental: uma pesquisa mostrou que uma pessoa assistindo TV consome menos energia do que uma deitada sem dormir.
Isso é perfeitamente compreensível, pois a sucessão muito rápida de imagens faz com que não se consiga refletir sobre o que está sendo visto. Qualquer pessoa pode fazer a experiência de tentar pensar conscientemente sobre as imagens vistas e as palavras que estão sendo ouvidas, por exemplo comparando com o que ela já conhece (exemplo: “essa candidata disse exatamente o contrário na semana passada!”).
Logo advém uma exaustão mental e a pessoa tenderá a relaxar mentalmente. Esse estado interior de relaxamento corresponde a um estado de sonolência, semi-hipnótico, o que já foi comprovado por vários estudos neurofisiológicos.
A imobilidade física e mental, mais o consumo de docinhos, salgadinhos e refrigerantes induzido pela propaganda, são causas fundamentais para o brutal aumento de excesso de peso e obesidade detectado pelo IBGE em sua pesquisa POF de 2008/9, onde foi mostrado que metade da nossa população adulta tem excesso de peso.
Nos EUA isso é muito pior e já é considerado epidemia: [usando como fonte dados do U.S. Centers for Disease Control and Prevention, National Insitutes of Health, a revista Scientific American, Vol. 303, No. 4, Oct. 2010, p. 80, dá a impressionante taxa de 65% de adultos americanos com sobrepeso em 2008, sendo 34% obesos, comparando com 48% e 15%, respectivamente; em 1980; os mesmos dados para crianças e jovens entre 2 e 19 anos foram 30%, 16% 6% e 6%, respectivamente.
O estado de sonolência do telespectador tem duas consequências principais. Para impedir que a pessoa passe para o sono profundo é necessário apelar para emoções fortes, já que o adormecimento do telespectador seria um desastre para os anunciantes ou para o nível de audiência no caso da TV pública ou educativa.
Por isso há tanta violência e erotismo na TV, e todo programa tem que ser movimentado, tipo show. Há aqui um círculo vicioso: para que o usuário da TV não adormeça, é necessário que as imagens mudem rapidamente contei em média 20 mudanças por minuto em programas ou filmes, e 60 em video clips – um verdadeiro ataque psicodélico.
Por outro lado, quanto mais as imagens se movimentam, mais o telespectador “desliga” sua atividade mental consciente. Em segundo lugar, tudo o que ele vê fica gravado em seu inconsciente, isto é, a TV é subliminar por natureza.
Essa é a situação ideal para a propaganda: gravação, sem crítica, no inconsciente. É por isso que o McDonald’s gastou em propaganda, só em 2002, só na TV americana, 510,5 milhões de dólares, segundo Susan Linn em seu excelente livro Crianças do Consumo, editado pelo Instituto Alana, que mantém uma justa campanha contra a publicidade dirigida a crianças.
Ora, uma empresa do porte do McDonald’s não iria jogar essa fortuna no lixo; ela foi gasta pois funciona. Como? Tendo gravado as imagens da propaganda no inconsciente, uma pessoa passando em frente a uma loja dessa cadeia sente vontade de lá comer, sem se conscientizar por que tem esse impulso.
É muito importante saber-se que o ser humano grava todas suas vivências, a maior parte no sub- e no inconsciente. Um jovem, ao entrar na universidade, carrega em média pelo menos 20.000 horas de lixo mental da TV e dos jogos eletrônicos.
Tanto a violência e o erotismo, quanto a gravação no inconsciente é trágica no caso de crianças e adolescentes, pois eles estão formando sua mente. Quem acha que tudo isso passa em brancas nuvens não tem bom senso e não conhece as pesquisas sobre as influências da violência e do erotismo nas pessoas, em particular nos jovens.
Está mais do que provado que a TV e os jogos violentos aumentam a agressividade, de curto a longo prazo. Ela pode manifestar-se de formas brandas, como agressões verbais ou, felizmente muito raramente, em formas extremas, como homicídios.
De fato, há uma repulsa natural muito grande de matar outras pessoas. Conforme pesquisas relatadas por Dave Grossman em seu livro Stop Teaching our Kids to Kill “Parem de ensinar nossas crianças a matar”, soldados e policiais que não foram dessensibilizados isto é, diminuindo-se aquela repulsa, acertam 20% dos tiros; os dessensibilizados acertam 90%.
Ele participou da equipe de psicólogos do exército americano que pesquisava como dessensibilizar os soldados, descobrindo que simuladores de lutas e batalhas com computador eram o meio mais eficiente para isso. Segundo ele, essa é a origem dos jogos eletrônicos violentos.
Se essa dessensibilização funciona com adultos, imagine-se então com crianças e adolescentes! Isso significa que os jogos violentos prejudicam ou não permitem o desenvolvimento de sensibilidade social, compaixão e impulso de ajudar os outros – justamente características daquilo que Daniel Goleman denominou de “Inteligência Emocional”, a habilidade de sociabilizar, que ele apontou como o fator mais importante para o sucesso profissional.
Passemos aos computadores e à Internet. Todas crianças querem é brincar e se divertir, o que é perfeitamente normal e sadio. Se não for assim, já perderam boa parte de sua necessária infância e juventude. Então, o que eles fazem com computadores e a Internet? Brincam e se divertem! Assim, dando-se um computador para cada jovem, como quer o projeto “Um laptop (ou computador) por criança”, não se está incentivando o aprendizado, muito pelo contrário!
Não consigo imaginar o que pensam educadores (ou “pedagocratas” como são chamados por Pierluigi Piazzi) que propõem que cada aluno tenha um computador conectado à Internet em sua carteira na sala de aula. O que vai fazer um aluno com o aparelho? Nada que tenha a ver com a aula, obviamente! Imagine-se uma sala de aula com os alunos digitando em seu micro.
Como eles prestarão atenção ao professor? Por isso e outros prejuízos para o ensino, várias escolas americanas proibiram que seus alunos trouxessem um computador para a escola. Está mais do que provado, inclusive com um estudo da Unicamp, que quanto mais um jovem usa um computador, pior seu rendimento escolar, como citei logo de início.
Além do tempo perdido com coisas inúteis ou mesmo prejudiciais para a educação, em minha concepção existe um fator profundo para o computador influenciar negativamente o desenvolvimento. Acontece que ele é uma máquina matemática.
Qualquer comando que se lhe dê, mesmo acionando um ícone, provoca internamente a execução de uma função matemática de manipulação de símbolos. Assim, o usuário, sem o perceber, está sendo forçado a pensar matematicamente. Isso não é sadio na idade infantil, pois a mente, e nem mesmo o cérebro, estão preparados para esse tipo de atividade mental.
Forçar um raciocínio abstrato antes da maturidade necessária significa prejudicar as funções mentais, por exemplo a capacidade de fantasiar, de imaginar, e portanto a criatividade. Essa é uma das conseqüências trágicas da escolaridade precoce, como por exemplo ensinar a ler antes dos [6 ½ a] 7 anos de idade essa idade estabelecida por nossos antepassados, e usada com enorme sucesso pela pedagogia Waldorf, tem um profundo significado do ponto de vista de maturação.
Um outro fator que prejudica a capacidade mental e de concentração é a enorme fragmentação produzida pelas imagens e, no caso dos computadores, pelo fato de se ter em geral várias tarefas ativas ao mesmo tempo. Isso ainda é piorado com o uso simultâneo de vários aparelhos, algo muito apreciado pelos jovens. Uma boa parte da educação deveria voltar-se para o desenvolvimento da capacidade de concentração, que é obviamente prejudicada por essa “multitarefa”. A deturpação da capacidade mental é, em minha opinião, uma das causas profundas da piora no desempenho escolar.
Por outro lado, o uso de qualquer meio eletrônico exige um enorme autocontrole. Adultos viciam-se em TV, nos jogos violentos e na Internet; imagine-se então o que ocorre com crianças e adolescentes, que não têm autocontrole para, por exemplo, limitar o tempo de uso.
Aliás, uma das conseqüências nefastas garantidas desses meios é diminuir a força de vontade – o mesmo efeito das drogas alucinógenas. Por isso a psicóloga Marie Winn chamou seu livro contra a TV de The Plug-in Drug “A droga que se liga na tomada”. Qualquer pessoa pode constatar como tem que fazer um enorme esforço interior para desligá-los, especialmente a TV e os games, o que é uma indicação de como eles “agarram” os usuários.
É preciso chamar a atenção para o fato de que a Internet apresenta um perigo imenso para crianças e adolescentes, como mostrou Gregory Smith em seu livro Como proteger seus filhos na Internet (veja-se meu artigo, com o mesmo nome, trocando-se o “na” por “da”).
Ele chama a atenção para o fato de crianças e adolescentes serem ingênuos, arriscando-se a serem vítimas de todo tipo de predadores. Além disso, adiciono que, no caso da Internet, elas não têm o necessário discernimento para distinguir o que é verdadeiro do que é falso, do que é bom e do que é mau, do que é apropriado ou não para sua maturidade e cultura.
Devido à propaganda de produtores de computadores e de software, criou-se a falsa ideia de que a Internet produz maior relacionamento social, o que seria importante para os jovens. A verdade é exatamente oposta: está provado estatisticamente que o uso dos meios eletrônicos, da TV à Internet, diminui esse relacionamento.
Isso é compreensível: além do gasto de tempo no relacionamento virtual, este não se compara com o pessoal; uma pessoa acostumada com o primeiro tipo tende a desenvolver uma dificuldade no exercício do segundo.
Quero deixar claro que não sou contra o uso de meios eletrônicos na educação em casos especiais. Por exemplo, para se mostrarem ilustrações da natureza, pode-se perfeitamente usar um aparelho de TV com vídeo na sala de aula, talvez a partir da atual 8a série.
No entanto, reconhecendo-se o efeito de sonolência, é fundamental que a transmissão seja breve, de alguns minutos apenas, e que se discuta o conteúdo e se o repita para que seja gravado no consciente dos alunos.
Finalmente, é preciso entender que não é, em absoluto, necessário que crianças e adolescentes usem os meios eletrônicos. Qualquer pessoa pode aprender a usá-los na idade adulta jovem. Por outro lado, os benefícios que eles podem trazer à educação são infinitamente suplantados pelos prejuízos.
Senhores pais e professores, tenham dó de seus filhos e alunos, não lhes dêem acesso ao meios eletrônicos! Ninguém mais duvida que estamos destruindo a natureza. Pois os meios eletrônicos destroem a infância e a juventude, uma das maneiras mais eficazes de se destruir a humanidade.
Voltar
- Imprimir
- Compartilhe
2 Comentários
-
31 de Janeiro de 2011 | 11:32
Eduardo Lara
Excelente matéria. Deixa bem claro o que foi escrito pelo Dave Grossman que: "Quanto mais a pessoa joga jogos violentos, menos ela irá querer ajudar ao próximo, com o tempo."
-
27 de Janeiro de 2011 | 09:21
Angélica Yamada
Todos os meios eletrônicos devem ser utilizados pelos jovens, principalmente para o conhecimento em informática, que hoje é muito valorizado pelas empresas, e um jovem que tem esse conhecimento passa a frente de outros, no futuro, quando entrar no mercado de trabalho, porém, eu também não gosto da ideia de computadores em sala de aula, que, de fato, tiram a concentração dos alunos.
Fechar
Notícias Relacionadas
- A Presidente do Instituto Arte de V...
- A importância do Engenheiro: Fazer...
- Descubra como eliminar os quelóide...
- Como estará o meu bebê? Nove mese...
- 16 sintomas e complicações mais c...
- Como lidar com a separação na gra...
- Seis dicas para tratamentos estéti...
- Massagem em bebês: Saiba os riscos...
- Dicas de como comer no Self Service...
- Giovani Piancelli
- Garoto de Maracaju desfila no Fashi...
- Garoto descoberto em Maracaju desfi...
- Jamile entrevista José Curcelli ...
- Três Lagoas - Capital mundial da c...
- Entrevista com o médico José Otá...
- Prefeita de Três Lagoas participa ...