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"Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada..."

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Carlos Paez Vilaró ao visitar Brasília em construção no final dos anos 50 do século passado, escreveu um livro sobre ela. Voltou para casa e criou a Casapueblo, sem linhas retas para ser mais humana, uma anti-Brasília urugaia!

Idealizada pelo multifacetado pintor, tapeceiro, escritor, cineasta, visionário e artista premiado em todo mundo, o extraordinário Carlos Páez Vilaró, a Casapueblo é uma escultura arquitetônica que mescla arte e design numa encosta em Punta Ballena, a 15 quilômetros do centro da bela Punta Del Este, no Uruguai. Seu atelier fica na parte superior da casa, que conta com museu, restaurante e hotel com 70 quartos. Há várias salas de visita que se debruçam em direção ao mar, onde ocorrem ininterruptamente exposições de esculturas, pinturas e cerâmicas e as gravuras dele a partir de US$ 30. Com sorte, se encontra o próprio artista, que faz uma dedicação especial na obra.



Pode lembrar talvez o catalão Gaudi ou Salvador Dali psicodélico, arredondada e branca, sem linhas retas, irregular, complexa, com influência mediterrânea que remete a castelos de areias gigantes, espaçonaves brancas ou um condomínio de João de barro para gente. Desce do alto do morro até quase a praia. Esta escultura habitável começou a ser construída em 1958 e foi crescendo devagar. Era um simples cômodo feito de latas, inicialmente. Um abismo à beira de um precipício que seria seu atelier. Em seguida, foi revestido com ripas de madeiras de navios naufragados. Então, numa mistura de cal, cimento e tela de galinheiro, criou a cara que hoje tem a casa, toda branca para contrastar com o céu e o mar. Foi sendo construída com suas próprias mãos e de acordo com seu estado de espírito e inspiração da hora. Ninguém sai incólume dessa experiência.



Além da paisagem de tirar o fôlego, da imensidão do mar e da vista verde, outros sentidos são acionados, com aroma do verde em redor. Um clássico diário desde 1994, a cerimônia do por do sol, ao crepúsculo dourado, tendo a voz de Vilaró recitando seu poema, é uma viagem! Como uma missa ecumênica, leva alguns visitantes às lágrimas ante a magnitude do espetáculo!



Cada personalidade que visitou a Casapueblo teve um quarto com banheiro construído para sua estadia: Toquinho e Vinícius, Pelé, Roberto Carlos, Robert de Niro, Omar Sharif, Brigite Bardot, Che Guevara, Carlos Menem, Tony Curtis, Ivo Pitangui, João Gulart, Patrick (filho de Jonh Wayne) e Anthony (filho de Alain Delon). Até os ladrilhos dos banheiros, feitos à mão, são personalizados!



Neste refúgio Vilaró pode viver, pintar e receber amigos. Há 50 anos ele faz arte. Ainda afirma que a arte e a vida são como um largo caminho cheio de portas que devem ser abertas para descobrir o que há por trás de cada uma. Era amigo do poeta brasileiro Vinícius de Moraes, que numa manhã de frente para o mar, para os filhos do artista, improvisadamente fez os versos da casa engraçada e completou: "Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada. Ninguém podia entrar nela, não, porque na casa não tinha chão. Ninguém podia dormir na rede, porque na casa não tinha parede. Ninguém podia fazer pipi, porque penico não tinha ali,... mas era feita com pororó, era a casa de Vilaró". Poucos conhecem a sequência original...


Da esquerda para a direita na foto: Marcos Grolero, eu (que fiquei aloirada assim que cheguei ao Uruguai – deve ser alguma coisa na água do chuveiro, neaum?), o querido artista Carlos Vilaró e sua mulher.

Casapueblo - O museu abre diariamente das 9 até o por do sol.

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1 Comentário

  • 02 de Agosto de 2011 | 19:55

    Alice Haag

    Espetacular a casa, o artista e sua história tão bem contada pela Bárbara. E a gente lê como se estivesse percorrendo o inusitado e excêntrico mundo de Vilaró. Arte não se explica e eu adoro... obrigada!

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