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Zilda Mayo em stand-up
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Depois de seis anos, ela retorna aos palcos com uma comédia inédita. Escancara sua vida profissional e pessoal. “Eu sou do público”, diz. Satiriza a vida com piadas picantes. Enfim, uma artista que se desnuda na arte de fazer rir e no lugar que é sua essência: o palco
No espetáculo que estreia em outubro Zilda Mayo interpreta a Zilda Mayo artista e mulher. Na comédia stand-up, ela traz ao público fatos pitorescos que aconteceram nesses 35 anos de vida artística e no cotidiano de sua vida conjugal. É assim que uma das artistas de maior expressão na pornochanchada brasileira retorna ao palco, depois promover à vinda de mais de 400 peças teatrais a Araraquara. “Eu reergui o nosso teatro”, destaca.
Fez 42 filmes, minisséries, novelas e dezenas de comédia no teatro. “Sou a principal defensora da pornochanchada brasileira. Não fazíamos sexo explícito. O nosso cinema era ingênuo se comparado ao que passa hoje na televisão”, recorda com orgulho Zilda. Ela estreou no cinema no único filme produzido por Sílvio Santos, Ninguém Segura Essa Mulher.
Mas quem a lançou no cinema foi David Cardoso com o filme Possuídas Pelo Pecado. “Na divulgação do filme, o David colocou um cartaz com minha foto que tomava a lateral inteira do Cine Marabá, em São Paulo”, relembra.
A deusa da Boca
Ela foi uma das grandes musas da Boca do Lixo, em São Paulo. Ao lado de Nicole Puzzi, Helena Ramos, Matilde Mastrangi & Aldine Muller ela reinava na Rua do Triunfo. Foi um dos símbolos sexuais de sua geração que mais apareceu em capa de revistas. Sua imagem era venda certa.
Defensora categórica da pornochanchada brasileira, Zilda Mayo foi se aventurar em São Paulo no início da década de 70, quando ainda tinha apenas 16 anos de idade. A viagem em busca de um sonho está em sua memória. Na capital, trabalhou em casa de família, em supermercado como demonstradora de perucas.
De fato, sua intimidade com arte cênica começou ainda na infância: “Gostava do mundo do circo, do palhaço. Mas era difícil a gente ter dinheiro. Na maioria das vezes, assisti aos espetáculos furando a lona. Não esqueço até o hoje o guarda que ia lá me tirar”, relembra Zilda Mayo que queria apenas ser atriz.
Leia, a seguir, a entrevista:
Como surgiu a ideia de fazer comédia stand-up?
- Eu fiz mais comédias. Também já fiz comédias que não foram comédia. Fiz O Colecionador, de John Fowles (1963), um clássico da literatura inglesa que foi adaptada para o teatro. Fazer comédia você é dirigida, você treina, você ensaia, mais é um dom. Meu pai contava muita piada, então que herdei um pouco também. Nessa peça além da história, eu conto bastante piada. Esse projeto, ele surgiu há uns três anos. Faz seis anos que eu estava fora do palco, sem atuar, mas nunca deixei o teatro. Continuei fazendo produções. Nesse tempo, trouxe uma média de 400 peças para Araraquara.
Como foi isso?
- As pessoas dizem que eu levantei o teatro em Araraquara. Ninguém queria vir fazer peça aqui, fora do eixo Rio-São Paulo. Fiz divulgação de porta em porta e fui convencendo o pessoal a trazer peças para cá. Dizia a eles que Araraquara tinha o melhor teatro do interior. As pessoas começaram a vir, fazer sucesso e agora elas brigam para vir para cá.
Sobre a atuação
- Nunca desisti da ideia de não atuar. Tive sempre na cabeça: - To fazendo produção, mas vou atuar. Fiquei durante todos esses anos trabalhando essa ideia. Na primeira oportunidade, eu vou voltar aos palcos. Estou fazendo a produção e ensaiando desde o começo do ano.
A comédia
- Eu decidi fazer o seguinte: é um stand-up, é uma comédia. Eu conto um pouco da história de minha vida pessoal e de minha carreira. Eu fiz uma sátira em cima. Eu fui casada durante dez anos, meu marido de papel passado. Não era amante, não era namorado (risos). Ele tinha tara com esse negócio de fantasias sexuais. Na peça eu falo um pouco disso, dou dicas...
Das taras!?
- Sim, eu conto isso. Eu tenho como exemplo o filme 9½ Semanas de Amor (com Mickey Rourke e Kim Basinger). Eu me vi ali no lugar da Kim. Eu “quero” os meus direitos autorais (brinca). Ele era um psicopata. Já no nosso caso, o relacionamento não era mais sexo, não era mais amor. Era malabarismo, contorcionismo, “quebra” de ossos... Não tinha limite.
Que lição você tirou disso?
- Digo que tudo que você faz de exagerado ou de menos, faz mal. Tudo tem que ter um equilíbrio na vida. Toda pessoa normal tem um equilíbrio. Isso aconteceu comigo também. Eu não aguentava mais. Era algo dramático e não era mais aquilo que eu queria. Então, eu brinco com isso na peça, faço uma sátira. Faço as posições no palco... Eu me divirto. Jamais eu imaginava que ia ser aplaudida (referindo-se a pré-estreia da peça).
A elaboração do roteiro
- Eu pedi para o meu sobrinho, Erick Orloski – formado em artes cênicas, é diretor –, escrever a história minha, as histórias verídicas que aconteceram em minha vida. Fui conversar com os meus patrocinadores, a alegria deles foi grande em saber que ia votar a atuar. O público é exigente. Ele quer rir, ele quer ouvir besteira. De dramático já basta a situação do País. E qual é o termômetro para saber se público gostou do espetáculo? É quando você é aplaudido em cena aberta.
Como é fazer o stand-up, um monólogo?
- Fazer uma peça sozinha é difícil e fazer rir é muito difícil. Segurar uma plateia durante mais de uma hora, fazer rir é dom, é um dom que Deus me deu. Quando me perguntam isso, eu digo que é um treino. Eu treino muito, ensaio, estudo e procuro fazer tudo sempre melhor. Mas, é um dom que eu tenho, de saber o tempo certo da piada. É muito difícil, você tem que ter peito e coragem.
“Zilda Mayo para os Íntimos”
É um livro do jornalista Luiz Augusto Zakaib, que está em fase final de realização, que relata a sua vida artística. Previsto para ser lançado no final do ano, Zilda Mayo salienta:
– Minha carreira é maravilhosa. No livro estarão os 42 filmes que contracenei. Todos datados, catalogados que trazem um pouco da história do cinema brasileiro, em particular da pornochanchada. São seis anos de trabalho, de pesquisa. Tudo que está ali é verdadeiro, os jornais que estou na capa foram fotografados inteiros, com data, edição. Eu guardei tudo. Eu tenho o maior acervo que você possa imaginar. Isso para mim é muito importante!
Sobre os fãs
- Eu descobri que jamais pudesse saber ou imaginar que tinha acontecido. O que representa os artistas para os fãs. Eu nunca levei meu problema para um fã ou para alguém. Eu nunca neguei um autógrafo. Eu nunca tive frescura com isso. Fiquei sabendo de muitas histórias engraçadas que aconteceram com as pessoas por causa da Zilda. Mulheres me dizem que já brigou com o marido porque ela ficava sempre falando de mim. Eu não sei mentir, não sou criativa. Isso é verdade e eu dou risada hoje, eu curto isso!
Símbolo sexual
- É tudo que você possa imaginar, eu fui. Para mim era tudo natural, eu nunca vislumbrei com as fotos que saíam nos jornais, revistas. A verdade é que eu sofri alguns preconceitos. Pessoas que me conheceram imaginavam que eu era outra pessoa. Nunca perguntei que pessoa era essa. Na época da ditadura, da repressão nunca sofri nenhuma agressão. Eu tinha um carinho muito grande de meus fãs. Sempre fui muito respeitada pela imprensa e pelos fãs.
A mídia
- A mídia era muito forte na época. A pornochanchada estava no auge. Eu estava todo o dia na capa do jornal Notícias Populares. Um dia a Sônia Abraão me ligou para me dizer que ia dar um tempinho e não publicar minha foto na capa porque já estavam dizendo que eu tinha um caso com um dos nossos diretores. Eu nunca pedi, mas eu tinha um arquivo de foto nos jornais muito grande. Eles tiravam fotos minhas no set de gravação. Os funcionários do jornal adoravam. Eu caí na graça da mídia. Depois de uns 20 dias, voltei a sair novamente. Eu nunca vou esquecer o que a Sônia Abraão fez: ligar para mim para dar explicação. Eu agradeço muito a ela. Eu sou uma pessoa privilegiada. Não me arrependo de nada do que fiz.
Os bastidores das filmagens
- Você não tem ideia! Eram bastante precários. A gente saia de Kombi para as filmagens. O negativo do filme era muito caro. Tínhamos que rodar a cena de prima, de primeira. Quem ganhava muito dinheiro eram os produtores e os distribuidores. E os artistas recebiam aquele cachê merreca que não dava para comprar nenhuma uma roda de carro. A gente se encontrava ali da Rua do Triunfo e dali saía para as filmagens. Na época, estava no auge fazer pornochanchada, era cult. Toda semana, vinha gente entrevistar a gente – do Rio e de São Paulo.
A Boca do Lixo
- Era a Hollywood nacional. Na Rua do Triunfo estavam todas as gravadoras, todas as produtoras, os artistas, os diretores, as putadas que faziam programas ali nos hotéis. Eu convivia ali maravilhosamente bem. Quando você saía para filmar, você ia para as externas, para as praias, para outras cidades, para os hotéis. Tudo de forma precária mesma. Não eram superproduções. Mas a gente filmava com alegria, não reclamava, ninguém enchia o saco. Em algumas locações tinham muito borrachudos (risos). Hoje tudo de primeira: hotel, carro, restaurante e, às vezes, tem alguns artistas que ainda reclamam. Sempre tive comigo que tinha que fazer o melhor espetáculo de sua vida. É lógico que você tem que ter uma condição boa, mas ficar enchendo o saco eu nunca fui disso. Havia uma união, não tinha barraco, não tinha estrelismo.
O cinema nacional, a pornochanchada
- A pornochanchada não era pornografia, sexo explícito. Vou ficar velhinha com megafone na mão dizendo que nunca fiz sexo explícito e nunca fiz filme pornográfico. Pornochanchada era o faz-de-conta, era uma comédia. O que a gente fazia na época hoje é algo muito ingênuo. As filas de cinema contornavam os quarteirões. Hoje isso não é mais possível. A violência está aí e os cinemas foram para o shopping. Depois que veio o sexo explícito acabou a pornochanchada.
Pessoas marcantes
- O David Cardoso foi porque foi ele quem me lançou no cinema. Jean Garret foi outra pessoa importante na minha vida. Foi ele quem me deu o nome artístico de Zilda Mayo. Osvaldo Oliveira era um expert. As pessoas tinham medo dele. Quando ele bebia umas pinguinhas, ele gritava repetidamente “Vamos filmar, piranhada”. O Chico Cavalcanti me deu oportunidade de fazer vários filmes com ele com papéis bons. São muitas pessoas, mas eles foram marcantes na minha vida.
“O Rei da Boca”
- Esse filme eu fiz com Roberto Bonfim. Foi um filme que me marcou muito. Ele foi feito na Rua do Triunfo. Eu filmei dentro dos hotéis. Eu fazia uma prostituta. Eu convivia com as prostitutas dali e não tinha nenhum tipo de frescura. Tínhamos respeito por filmar no meio delas. Eu fazia perguntas, ficava observando o jeito de cada uma. É interessante dizer que gente estava gravando e o movimento ali no hotel continuava; pessoas entravam, saiam e elas continuavam fazendo programas. Foi um fato marcante.
“Zilda Mayo em Stand-Up”
Sinopse: um espetáculo solo em que a atriz e comediante utiliza o formato stand-up para contar piadas, contar história de sua vida através de sátiras. Diversão para o público mostrando que apesar do lado trágico e absurdo que a vida nos revela, pode-se rir de nós mesmos deixando o caminho mais leve.
Atuação, direção e produção: Zilda Mayo
Adaptação dramaturgia: Erick Orloski
Som e Luz: Marcos dos Anjos Jr.
Executiva: Angélica Bombarda e José Rubens de Barros
Estreia: dias 6, 7 e 13 de outubro, às 21h
Local: Teatro Municipal de Araraquara
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1 Comentário
-
19 de Setembro de 2011 | 23:52
Renato Fernandes
Entrevistei Zilda Mayo o ano passado para a Revista Joyce Pascowitch, sem dúvida, uma das minhas melhores entrevistadas. Estarei lá!
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