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Exposição “Dialogues”
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Diálogo com a natureza sob diferentes pontos de vista. A brasileira Christina Oiticica e colombiana Geneviève Maquinay expõe na ONU em Nova York.
Em 1986, o escritor Paulo Coelho percorreu a pé os quase 800 km que separam a cidade fronteiriça francesa de Saint Jean Pied d’Port da galega Santiago de Compostela na Espanha. Tamanha foi a importância da viagem em sua vida, que o Caminho de Santiago foi tema de seu primeiro livro, “Diário de um Mago”. Algo semelhante aconteceu com sua esposa, a arquiteta e artista plástica, Christina Oiticica que, em 1990, caminhou pela consagrada trilha e, após completar a peregrinação, decidiu dedicar-se exclusivamente à arte.
A mudança do casal Christina e Paulo para a França, mais especificamente para um hotel nos Montes Pirineus, no início da atual década, foi um marco importante na vida da pintora. Com uma exposição pré-agendada em Paris, Christina tinha a necessidade de criar uma série considerável de trabalhos mas o hotel não dispunha de espaço suficiente para a execução do trabalho. A artista foi pintar do lado de fora. Como as telas eram grandes e a tinta ainda úmida impedia que fossem enroladas, a artista deixou-as pernoitar ao relento. Quando foi buscá-las observou que folhas, sementes e insetos caíram sobre as pinturas, aderindo à tinta. Christina percebeu, naquele momento, que, de alguma forma, a natureza interferira em sua obra. Foi um insight que mudou os rumos de sua carreira.

Foi então que a artista desenvolveu sua técnica única, com a qual vem trabalhando desde então, de enterrar suas pinturas na terra e fazer da natureza sua parceira. Christina “planta seus quadros” para depois acompanhar a “germinação” de obras alteradas pela ação direta do ambiente. A inspiração para pintar surge, ocasionalmente, no local onde a tela será deixada, embora isto não seja regra. Através de coordenadas geográficas, ao final de alguns meses, as obras são retiradas e, cuidadosamente, emolduradas.
Desde 2002 Christina tem enterrado obras pelo mundo. Já esteve na Amazônia, no Chile, no Japão, na Índia e nos Alpes Suíços. Nos Pirineus, em 2006, iniciou um projeto ambicioso, o de percorrer o Caminho Peregrino de Santiago de Compostela, enterrando 100 obras ao longo das principais paragens. Foi uma volta ao caminho que percorrera 16 anos antes, uma ambição artística de Christina que levou 2 anos para estar concluída. O resultado deste trabalho resultou numa grande exposição de 59 telas, em maio de 2009, na Igreja da Universidade de Santiago de Compostela, que depois também esteve na Capital Madri.
Enquanto aguardava o momento do desenterro das obras que estavam ao largo da rota peregrina, Christina desenvolveu um trabalho no Japão, ao longo do Caminho de Kumano, considerado sagrado para os taoístas e budistas, tal como o Caminho de Santiago o é para os cristãos. Como é costume entre os monges das montanhas de Yamabushi enterrar seus objetos sagrados, o trabalho de Christina foi recebido com muita naturalidade e respeito. O Caminho de Kumano e o de Santiago são considerados como “irmãos”, semelhantes entre si.
Christina irá mostrar na ONU, de 23 de maio a junho de 03, 29 obras originárias de duas experiências de Kumano e Santiago de Compostela. Assim, a partir da coincidência entre as duas séries, estabelece-se a ligação entre o leste e oeste, a terra do sol nascente e a terra do sol através da visão de uma artista brasileira, Christina Oiticica. A mostra, que terá 29 obras, entre pinturas e objetos terá o título de “Caminhos do Sol Nascente e do Sol Poente”.
A série de Christina será apresentada no contexto da exposição “Dialogues”, conjunta com uma outra importante representante da environmental art, a belgo-colombiana, residente em Nova York, Geneviève Maquinay que mostrará uma coleção de esculturas feitas a partir de elementos extraídos de resíduos urbanos e de elementos da natureza (metal, madeira, pedras, material reciclado etc). A série é intitulada “Intimate Itinerary” e terá 16 peças da produção mais recente da artista.
Formada em fine arts na Colômbia, Geneviève complementou seus estudos na Art School of La Cambre em Bruxelas. Os materiais que a artista emprega provém de lugares dispares do planeta, distantes por milhares de quilômetros, de paisagens e climas diferentes. Promove portanto o “dialogo” entre o urbano e o natural, construindo uma terceira natureza, da sua própria criação artística.
Se Christina Oiticica vai aos ambientes e neles exerce sua criação, permitindo que a natureza dê o toque final, Maquinay faz o oposto, vai aos ambientes, recolhe os elementos e, no estúdio, finaliza sua obra. 
A vernissage de abertura também terá o lançamento do livro “Diálogos no mundo contemporâneo” do escritor pernambucano Antônio Campos. A obra trata da possibilidade de mudança de paradigma no mundo contemporâneo, onde possa haver maior tolerância entre as culturas, a partir do exemplo do Brasil, onde há significativa harmonia entre as diversas origens étnicas, culturais e religiosas.
A exposição “Dialogues” é uma iniciativa da Casa Brasil, apoiada pela Sociedade da Língua Portuguesa da Organização das Nações Unidas (SLP).
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