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A Fábula sem Moral de José Elffer
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Como um artista da palavra, que lida diariamente com o imaginário a povoar o mundo interno, alegro-me sempre a escrever sobre a obra pictórica de meu amigo Zé Luiz Ferreira, hoje José Elffer, por se tratar do imaginário expresso já no mundo externo, revelado pelas imagens, e busca a leitura do particular, conectada ao oceano do inconsciente coletivo, à imensa cascata de signos, e à vasta simbologia pesquisada e tratada, pioneiramente, por C. G. Jung: e também pela força visual, magnética, que prende aquele que aprecia a tela de José Elffer, em desenho que se firma pela preciosidade da técnica/do traço em dias de pantecnologias e recursos gráficos de alta definição.
Trata-se, tal tentativa, de sondar algumas possibilidades, já que acompanho há algum tempo estas telas surgirem da mão veloz a querer não perder de vista, os detalhes, os ícones, os principais símbolos que povoam esta “cidade”: em quê, mantidas as distâncias, bebe da fonte de H. Bosch (1450 - 1516), principalmente na miniaturização de elementos humanos e animais, ou mesmo nas figuras híbridas.

Vindo do fluxo do inconsciente, como num jato criativo, os desenhos criam uma assinatura identificada, com suas figuras escatológicas, visualizadas com enorme impacto, do todo para o particular, e neste os preciosos detalhes, em desenhos que constroem o religioso (Eva – a Maçã – a Serpente, figuras do elenco fixo dos “atores” desta cena que vira do avesso o mundo real, ou na verdade, o desenha como de fato ele é: com seus lados de figuras histriônicas, que quase convidam ao grotesco, o que é contido pelo viés do humor.
Vindo da escola do desenho, no princípio, todos em p/b, em uso de nanquin, o artista sentiu a necessidade da cor, em seus trabalhos, e resolveu depois de muitos anos sem ela, fazê-la estar em cena, sem roubar a mesma: assim, houve uma nova abertura, um novo “código” a se integrar, embora minoria, e tanto os p/b quanto os com cores no corpo do desenho, apresentam-se em telas de proporção média, para grande. O questionado “belo” das artes, das belas artes, realiza-se no olhar inicial impactante, mas traz a desfiguração deste conceito da beleza clássica, nos detalhes, em que figuras humanas, répteis, objetos, plantas, peixes, depois cruzes, barcos, pássaros, tudo sempre em franca e rasgada sexualidade, no espaço visceralmente preenchido em seu todo, como necessidade, e como proposta: e sempre como que de maneira lúdica – a brincar com as descobertas “perplexas” ou “delirantes” de casa um.

Também Carnavalesco, Professor de Artes, Artista de Teatro, o Artista Plástico José Elffer está antenado a um mundo que busca, não mais entender, mas seguir em frente, entre o claro e o escuro de cada um, driblando os demônios e os sonhos que tragam a leveza dos anjos, ou quem sabe? O inverso! É deste contato diário com o mundo daqui de fora, que o desenho de JOSE ELFFER retempera e vira/ou revira sua fábula – e conta uma história que a caneta, em sua mão ágil, nos surpreende e encanta – uma história que vem sendo escrita de desenhos, e não de palavras. Mas de peso e beleza iguais.
Uma das maiores ambições do artista, parece-me, é criar uma obra na qual não haja dúvidas sobre sua autoria.
Na arte contemporânea, entre experimentalismos e buscas, o meu trabalho de artista revisita o percurso primitivo das imagens captadas e envidraçadas pelas regiões do inconsciente. Trabalhos como do gravurista Samico, ou as ilustrações indianas, ressaltam o desenhista na empreitada do domínio técnico, a partir do qual a arte se manifesta com os elementos de seu estatuto.

O desenho revela-se como proposta de resgate do traço, e na temática, imbricada no caldo do inconsciente coletivo da mitologia religiosa, instala-se como deleite e sedução.
Na elaboração dos trabalhos, a precisão com detalhes traduzem para o apreciador um efeito hipnótico e até catártico, além das sensações histriônicas, aproximando – guardadas as devidas proporções – com “O Jardim das Delícias “ com sua surpreendente riqueza de detalhes, num mundo caótico e sexual até suas últimas conseqüências.
Eu sinto que estes desenhos são parte de meu paraíso e inferno pessoais, uma irreverência junto ao sagrado, e uma benevolência junto ao profano, vindos do fluxo do inconsciente como um rio que precisa atravessar pântanos, selvas e desertos, só na certeza de que o mar o espera.
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